NÃO ÀS ARMAS NUCLEARES

As armas nucleares representam uma grave e crescente ameaça à humanidade e ao nosso planeta. Eliminá-las é uma tarefa cada vez mais urgente.

NÃO ÀS ARMAS NUCLEARES

Uma maioria das nações do mundo está firmemente comprometida com esse objetivo, tendo aderido ao histórico Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares, que entrou em vigor em 2021.

Mas nove nações ainda possuem as mais potentes armas de destruição em massa, desafiando a nova norma internacional e a vontade de seus cidadãos. A cada ano, elas desperdiçam bilhões de dólares modernizando e ampliando seus arsenais.

Uma perigosa corrida armamentista nuclear está em curso, e o risco de uso de armas nucleares — seja deliberado, seja acidental — é tão alto hoje quanto jamais foi. Estamos, a todo momento, a apenas uma decisão errada de uma catástrofe global.

Para evitar o dano sem paralelos que as armas nucleares foram concebidas para produzir, governos precisam agir com urgência para eliminá-las agora — a única garantia contra seu uso e testes futuros.

Mas isso só acontecerá se pessoas em todos os lugares se levantarem e exigirem ação.

As piores armas do mundo

As armas nucleares são as mais destrutivas, indiscriminadas e desumanas armas já produzidas. Uma única bomba é poderosa o suficiente para destruir uma cidade inteira, com um número de mortos que chega às centenas de milhares, senão milhões.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha descreveu as armas nucleares como “únicas em seu poder destrutivo, no sofrimento humano indescritível que causam … e na ameaça que representam para o meio ambiente, para as gerações futuras e, de fato, para a sobrevivência da humanidade”.

Ao liberarem grandes quantidades de radiação, elas envenenam o ar, a terra, a água e nossos corpos, causando danos através de fronteiras nacionais e por meio de gerações.

Enquanto existirem, há um risco muito real de que sejam usadas novamente, e as consequências serão catastróficas — inclusive para pessoas em países que nada têm a ver com o conflito em que elas forem utilizadas.

Máscaras de gás não oferecem proteção contra a radiação gama. Crédito: Ricky Pitman

Efeitos de uma arma nuclear

Calor

Quando uma arma nuclear é detonada, ela libera um calor extremo. Quase tudo e todos próximos ao marco zero são instantaneamente reduzidos a cinzas e vapor.

Uma grande bola de fogo, de mais de um milhão de graus Celsius no seu núcleo sobe alto até o céu, e as temperaturas do no solo atingem vários milhares de graus — mais quente do que a superfície do sol.

O calor extremo incendeia focos de fogo em uma área ampla, que liberam fumaça tóxica e gases de combustão no ar e se juntam para formar uma gigantesca tempestade de fogo.

Mesmo pessoas que estão a dezenas de quilômetros do marco zero sofrem queimaduras graves e potencialmente fatais, enquanto pessoas muito mais distantes são cegadas pelo clarão intenso de luz.

Explosão

Uma arma nuclear também gera uma imensa parede de ar de alta pressão, em rápida movimentação, conhecida como onda de choque, que se propaga para fora por muitos quilômetros.

Ela arremessa pessoas pelo ar, as deixa inconscientes, dilacera seus corpos e faz com que seus pulmões colapsem.

Prédios em uma ampla área são completamente arrasados, e muitas pessoas são esmagadas até a morte. Objetos soltos são lançados pelo ar como projéteis.

Até mesmo grandes arranha-céus de concreto e aço são destruídos pela força da explosão.

Radiação

A reação nuclear em cadeia que causa a explosão libera uma quantidade massiva de radiação ionizante, que penetra profundamente no corpo das pessoas, destruindo ou danificando suas células e induzindo doenças.

Mesmo a uma distância de vários quilômetros do marco zero, as pessoas recebem uma dose de radiação alta o suficiente para causar morte por envenenamento agudo por radiação.

Os sintomas incluem vômito, sangramento nas gengivas, diarreia e queda de cabelo. A maioria dos afetados morre em poucos meses após o ataque.

Alguns se recuperam do estágio agudo da doença, mas morrem anos — ou até décadas — depois, em decorrência de cânceres e outras enfermidades causadas pelos efeitos tardios da radiação.

Alguns sobreviventes apresentam aberrações cromossômicas e outros tipos de dano genético, que podem ser transmitidos às gerações futuras.

Precipitação radioativa

Uma arma nuclear também cria uma enorme nuvem em forma de cogumelo, que suga poeira e detritos radioativos para cima, em uma coluna, e os libera na atmosfera.

As correntes de vento os dispersam pelo ar, e, por fim, eles caem no solo sobre uma área imensa.

Conhecida como precipitação radioativa, ela representa riscos imediatos e de longo prazo à saúde, mesmo para pessoas muito distantes do marco zero. Alguns isótopos radioativos permanecem perigosos por muitos anos, contaminando o solo, a água e o abastecimento de alimentos.

Pulso eletromagnético

Se detonada em alta altitude, uma arma nuclear emite um poderoso pulso eletromagnético que destrói equipamentos eletrônicos em uma ampla área. Comunicações celulares, capacidades de internet e tecnologia bancária são severamente interrompidas.

Esse efeito foi observado pela primeira vez na era dos testes nucleares atmosféricos e em alta altitude. Em 1962, quando os Estados Unidos testaram uma arma nuclear no espaço, a cerca de 400 quilômetros acima do Atol Johnston no Oceano Pacífico, o teste causou danos a postes de luz e telefones no Havaí, a mais de 1.450 quilômetros de distância.

Uma explosão nuclear de altíssimo poder destrutivo em alta altitude poderia destruir eletrônicos em um continente inteiro.

A explosão de um teste nuclear em uma casa modelo no estado americano de Nevada. Crédito: Governo dos EUA

A maior vulnerabilidade das crianças

Bebês e crianças são particularmente vulneráveis aos efeitos das armas nucleares.

Eles têm maior probabilidade do que os adultos de morrer em decorrência de queimaduras (pois sua pele é mais fina e delicada), de lesões causadas pela onda de choque (dada a fragilidade relativa de seus corpos) e da síndrome aguda da radiação (pois possuem mais células em crescimento e divisão rápidas).

Também têm menos capacidade de se libertar de edifícios desabados e em chamas ou de tomar outras medidas, no período imediatamente posterior, para aumentar suas chances de sobrevivência.

Uma criança recebe tratamento para queimaduras após o bombardeio nuclear americano de Nagasaki em 1945. Crédito: Yasuo Tomishige

Inverno e fome nuclear

As armas nucleares são os únicos dispositivos já criados com capacidade de destruir todas as complexas formas de vida na Terra.

Se cem ou mais delas forem usadas contra cidades, a fuligem e a fumaça provenientes dos incêndios resultantes cobririam o planeta e bloqueariam a luz solar por mais de uma década, levando a uma queda dramática nas temperaturas globais — um efeito conhecido como inverno nuclear.

Mergulhado na escuridão, o mundo experimentaria condições de congelamento mesmo em regiões que hoje são ambientes tropicais. As colheitas seriam dizimadas e a produção agrícola global entraria em colapso, levando a uma fome generalizada e ao colapso social.

Epidemias de doenças infecciosas e conflitos por recursos escassos se tornariam frequentes. Pessoas que já estão desnutridas estariam em maior risco de morte.

Mesmo uma guerra nuclear chamada de “limitada” — envolvendo uma pequena fração do estoque global de armas nucleares — colocaria grande parte da população mundial em risco de morrer de fome.

Tal guerra esgotaria gravemente a camada de ozônio, levando a um aumento expressivo de certos tipos de câncer e auma devastadora perda de vida marinha. Muitas espécies animais e vegetais enfrentariam a extinção, e os danos ao planeta seriam irreversíveis.

Colapso econômico e migratório

Em uma guerra nuclear, milhões de pessoas expostas à radiação seriam forçadas a fugir de suas casas para países vizinhos, necessitando urgentemente de abrigo, alimentos e água não contaminados, e assistência médica. O número de pessoas em busca de refúgio não encontraria precedente na história.

O uso de múltiplas armas nucleares também dificultaria gravemente o comércio internacional e as telecomunicações, podendo resultar em um colapso econômico global, o que agravaria a pobreza e atrasaria os objetivos de desenvolvimento humano por décadas.

Nenhuma nação e nenhum indivíduo está imune aos impactos potenciais.

Hiroshima e Nagasaki

Mais de duzentos e cinquenta mil pessoas foram mortas quando os Estados Unidos lançaram duas bombas nucleares relativamente pequenas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 — o primeiro e único uso de armas nucleares em guerra.

Muitas foram instantaneamente incineradas. Outras morreram em agonia horas, dias ou semanas após os ataques em decorrência de queimaduras graves, ferimentos causados pela onda de choque e síndrome aguda de radiação. Incontáveis outras morreram anos depois de cânceres relacionados à radiação dentre outras doenças.

Para prevenir a recorrência de tais atrocidades, as nações devem agir com urgência para eliminar as armas nucleares.

Em Hiroshima e Nagasaki, as cenas de devastação eram apocalípticas: pátios de escolas repletos de crianças mortas e agonizantes. Mães embalando seus bebês sem vida. Pessoas com seus intestinos expostos e tiras de pele pendendo de seus membros.

A maioria das vítimas morreu sem qualquer cuidado para aliviar seu sofrimento, pois poucos hospitais permaneceram de pé, os suprimentos médicos haviam sido destruídos e a maioria dos médicos e enfermeiros havia sido morta ou ferida. Aqueles que entraram nas cidades logo após os ataques para prestar assistência arriscaram suas próprias vidas devido à radiação residual.

A grande maioria das vítimas — mais de 90 por cento — eram civis, incluindo aproximadamente 38.000 crianças. No momento do ataque a Hiroshima, cerca de 8.400 estudantes do ensino fundamental estavam ao ar livre criando faixas livres para conter incêndios como medida de defesa civil; 6.300 deles foram mortos.

Hiroshima em ruínas. Crédito: Governo dos EUA

Uma exposição no Museu Memorial da Paz de Hiroshima.

Marco zero

Em cada cidade, aqueles mais próximos do marco zero — conhecido como o hipocentro da explosão — tinham poucas chances de sobrevivência. Quase todos dentro de um raio de 1,2 quilômetros e desprotegidos dos efeitos da bomba morreram instantaneamente ou em poucas semanas.

As temperaturas no solo no hipocentro atingiram de 3.000 a 4.000 graus Celsius, com pessoas a até 3,5 quilômetros de distância sofrendo queimaduras. Poderosas ondas de choque destruíram a maioria das estruturas de madeira em um raio de 2 quilômetros.

Mesmo a uma distância de 1 quilômetro, as pessoas receberam uma dose suficientemente alta de radiação ionizante para morrer de envenenamento agudo por radiação. Muitas pessoas muito mais distantes também morreram em decorrência dos efeitos tardios da exposição à radiação.

A sequência

Na caótica sequência dos bombardeios, pais procuravam desesperadamente por seus filhos e filhos por seus pais. Alguns encontraram apenas os restos carbonizados ou pertences pessoais de seus entes queridos; outros não encontraram nenhum rastro.

Os esforços para reunir os membros das famílias foram dificultados pelo fato de que muitos haviam sofrido ferimentos tão graves que mal eram reconhecíveis.

“Depois de um tempo, espiei para fora do abrigo antiaéreo. Encontrei pessoas espalhadas por toda a parte no pátio. O chão estava coberto quase inteiramente por corpos. A maioria parecia morta e estava imóvel. Aqui e ali, no entanto, alguns agitavam as pernas ou levantavam os braços.”

Fujio Tsujimoto, cinco anos de idade, Nagasaki

Algumas vítimas não apresentavam nenhuma cicatriz física, mas de repente adoeceram e morreram. Suas mortes intrigaram os primeiros socorristas, que desconheciam que um novo tipo de arma com efeitos perniciosos e radioativos havia sido utilizado.

Muitas mulheres grávidas nas cidades sofreram abortos espontâneos ou deram à luz bebês que morreram durante a infância, pois a radiação das bombas havia penetrado em seus úteros. Anomalias congênitas, incluindo microcefalia, eram comuns entre bebês expostos ainda no útero.

Nagasaki um mês após o ataque. Crédito: Governo dos EUA

Um menino em Nagasaki recebe comida racionada no rescaldo do ataque. Crédito: Yosuke Yamahata

O triciclo de Shinichi

No momento do ataque a Hiroshima, o pequeno Shinichi Tetsutani, de três anos, estava do lado de fora de sua casa fazendo o que mais amava — andando de triciclo.

Ele sofreu ferimentos gravíssimos, incluindo queimaduras em todo o corpo, e morreu algumas horas depois. Suas duas irmãs, Michiko e Yoko, também foram mortas.

Seu pai comentou anos mais tarde: “Isso nunca deveria acontecer com crianças. Por favor, trabalhem para criar um mundo pacífico onde as crianças possam brincar à vontade.”

O triciclo queimado de Shinichi está hoje em exposição permanente no Museu Memorial da Paz de Hiroshima, e uma escultura baseada nele pode ser encontrada no Museu Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em Genebra.

Ele se tornou um símbolo tocante do sofrimento das crianças nos ataques nucleares.

Crédito: Museu Memorial da Paz de Hiroshima, doado por Nobuo Tetsutani

Irmãs em Hiroshima

Kimino Wataoka, de dois anos de idade, e sua irmã Hirono, de cinco, estavam em casa com seus pais quando Hiroshima foi atacada. Os quatro foram mortos.

Outra irmã, Kayoko, estava próxima ao marco zero e também morreu. Apenas a irmã mais velha, Chizuko, sobreviveu.

Acredita-se que esta foto de Kimino (à esquerda) e Hirono (à direita) foi tirada apenas um dia antes do bombardeio nuclear. Crédito: Miho Iwata

Irradiados pela bomba

Toru Ikemoto tinha sete anos e sua irmã, Aiko, tinha nove quando Hiroshima foi destruída. Ambos estavam em ambientes fechados, a cerca de 1 quilômetro do hipocentro.

Quatro ou cinco dias após o ataque, seus cabelos começaram a cair e eles apresentaram febre e sangramento nas gengivas — sintomas de envenamento agudo de radiação.

Embora ambos tenham se recuperado da fase aguda da doença, acabaram sucumbindo aos efeitos tardios da radiação. Toru morreu aos 11 anos e Aiko aos 29.

Os irmãos Toru (à esquerda) e Aiko (à direita) no Hospital da Cruz Vermelha de Hiroshima em outubro de 1945. Crédito: Shunkichi Kikuchi

Sobreviventes

Aqueles que, por acaso, sobreviveram aos bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki ficaram conhecidos em japonês como hibakusha, ou “pessoas afetadas pela explosão”.

Muitos suportaram dor e desconforto ao longo de toda a vida devido aos seus ferimentos, além de trauma psicológico. Alguns desenvolveram tecido cicatricial espesso pelo corpo e pelo rosto, ou viveram por décadas com fragmentos de vidro incrustados profundamente em sua carne.

As mulheres enfrentaram dificuldades e estigmas particulares devido ao temor de que os danos genéticos causados pelas bombas fossem transmitidos a seus filhos e netos.

Poucos anos após os ataques, os sobreviventes começaram a desenvolver cânceres e outras doenças em taxas incomumente altas como resultado dos efeitos tardios da radiação. A leucemia foi especialmente comum nos primeiros anos.

Para alertar o mundo sobre o perigo das armas nucleares, muitos sobreviventes compartilharam publicamente seus testemunhos pessoais sobre o que aconteceu em 1945. Alguns que eram crianças na época dos ataques ainda estão vivos hoje e continuam esse trabalho de contar a verdade.

Sua mensagem tem sido clara e consistente ao longo das décadas: As armas nucleares e a humanidade não podem coexistir.

Em 2024, o Nihon Hidankyo — uma confederação japonesa de organizações que representa os sobreviventes — ganhou o Prêmio Nobel da Paz “por seus esforços para alcançar um mundo livre de armas nucleares e por demonstrar, por meio de testemunhos, que as armas nucleares jamais devem ser usadas novamente”.

A corajosa e incansável atuação dos sobreviventes inspirou muitas pessoas ao redor do mundo a se unirem ao movimento pelo desarmamento nuclear.

Um sobrevivente e defensor da causa

Aos 16 anos, Sumiteru Taniguchi sobreviveu ao bombardeio nuclear de Nagasaki. “No clarão da explosão, fui arremessado para longe da minha bicicleta por trás e jogado contra o chão”, recordou ele.

Quando ergueu a cabeça ele viu que as crianças que estavam brincando ao seu redor momentos antes estavam agora mortas.

Apesar de estar a quase 2 quilômetros do hipocentro, sofreu queimaduras graves nas costas, no braço esquerdo e na perna esquerda. Seus ferimentos logo se infectaram, e ele passou quase quatro anos hospitalizado em recuperação, incluindo 21 meses deitado de bruços.

A dor causada pelos seus ferimentos nunca desapareceu. Ele dedicou grande parte de sua vida à causa da abolição das armas nucleares.

Sumiteru Taniguchi observa uma imagem de si mesmo tirada em 1946, com as costas marcadas pelas cicatrizes da bomba de Nagasaki. Crédito: Yuriko Nakao

O legado dos testes nucleares

Para aumentar a destrutividade e letalidade de suas forças nucleares, e para enviar alertas a seus adversários, as nações detentoras de armas nucleares realizaram mais de 2.000 explosões de testes nucleares ao redor do mundo desde 1945.

Liberando vastas quantidades de radiação na atmosfera e nos oceanos, esses experimentos tóxicos causaram epidemias de cânceres e outras doenças crônicas. Vastas extensões de terra permanecem impróprias para habitação, mesmo décadas após o fechamento dos locais de teste.

No estado americano do Novo México, apenas três semanas antes dos bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki, o governo dos EUA realizou a primeira explosão de teste nuclear do mundo, com o codinome “Trinity”. Sua gigantesca bola de fogo transformou as areias em vidro, iluminou as montanhas ao redor e lançou uma nuvem cogumelo de detritos radioativos a 12 quilômetros de altura no céu.

As consequências para os trabalhadores do local de teste e para as comunidades próximas foram devastadoras — e continuam sendo sentidas até hoje.

O mesmo aconteceu com as pessoas que trabalhavam ou viviam a favor do vento ou a jusante de mais de 60 outros locais de testes nucleares ao redor do globo, dos desertos da Austrália e da Argélia às estepes do Cazaquistão e aos atóis do Pacífico.

Iroji Kebenli, 13 anos, sofreu queimaduras por radiação quando os Estados Unidos testaram uma arma nuclear nas Ilhas Marshall em 1954. Crédito: Governo dos EUA

A nuvem em cogumelo da explosão de teste nuclear. Crédito: Governo dos EUA

Locais de testes nucleares

Armas nucleares foram testadas na Argélia, Austrália, China, Índia, Cazaquistão, Kiribati, Ma’ohi Nui (Polinésia Francesa), Ilhas Marshall, Coreia do Norte, Paquistão, Rússia, Turcomenistão, Ucrânia, Estados Unidos e Uzbequistão.

As explosões de testes nucleares atmosféricos — mais de 500 das quais foram realizadas entre 1945 e 1980 — tiveram um efeito particularmente nocivo, dispersando partículas radioativas por toda parte. Sua força destrutiva combinada foi equivalente a 29.000 bombas de Hiroshima.

Hoje, cada pessoa viva carrega em seu corpo substâncias radioativas provenientes de testes atmosféricos, aumentando seu risco de doenças. Médicos projetam que, ao longo do tempo, esses testes passados causarão pelo menos quatro milhões de mortes prematuras por cânceres e outras doenças.

As explosões de testes nucleares conduzidas subaquáticas e subterrâneas também tiveram impactos de longo prazo na saúde e no meio ambiente.

Na segunda metade do século XX, a preocupação mundial com os efeitos dos testes nucleares deu origem a grandes movimentos de protesto em muitas partes do mundo, levando os líderes a negociar uma proibição parcial em 1963 e uma proibição abrangente em 1996. Ambas ajudaram a deter os testes nucleares globalmente.

Mas as implicações dos testes passados para a vida das pessoas e para os frágeis ecossistemas da Terra continuarão sendo sentidas por gerações vindouras. A comunidade internacional tem o dever, não apenas de garantir que tal destruição jamais seja perpetrada novamente, mas também de trabalhar para reparar os danos já causados.

Poucos sobreviventes de testes nucleares em qualquer parte do mundo foram alguma vez indenizados por seu sofrimento, e os esforços para descontaminar antigos locais de testes nucleares têm sido lamentavelmente insuficientes. Em alguns locais, infraestruturas deterioradas representam um risco contínuo de nova contaminação.

Uma explosão de teste nuclear francês no Atol de Moruroa em Ma’ohi Nui em 1971. Crédito: Governo francês

Uma cratera formada por uma explosão de teste nuclear russo no Cazaquistão. Crédito: CTBTO

Racismo radioativo

Crenças racistas frequentemente embasaram as decisões relativas aos testes nucleares, com governos e forças coloniais encarando os povos indígenas como descartáveis e suas terras sagradas como sem valor e “remotas”.

“Nossa terra, nosso mar, nossas comunidades e nossos próprios corpos carregam conosco o legado desses experimentos mortais agora, e por gerações futuras ainda desconhecidas”, testemunhou Karina Lester, uma mulher Yankunytjatjara Anangu da Austrália, em nome de uma coalizão de grupos indígenas nas Nações Unidas em 2017.

Na busca por “armas de destruição em massa cada vez mais letais”, as autoridades trataram os povos indígenas como “cobaias”, disse ela. Seu consentimento raramente era solicitado, quanto mais obtido, e pouca ou nenhuma proteção foi jamais oferecida.

O legado tóxico dos testes nucleares fez com que muitas comunidades fossem desconectadas de seu modo de vida tradicional, incapazes de retornar a seus locais ancestrais ou de sobreviver da terra e das águas como faziam há séculos.

Austrália: chegado pela bomba

Em 1953, quando Yami Lester tinha 10 anos, o Reino Unido começou a realizar testes nucleares em Emu Field, perto de sua casa no interior da Austrália.

Ele se lembrava de detritos radioativos, ou “névoa negra”, tomando o céu. A fumaça fazia seus olhos arderem e, em menos de quatro anos, ele havia perdido completamente a visão.

“Eu estava apenas brincando com as outras crianças. Foi quando a bomba explodiu”, ele relatou. “Lembro do barulho, era um barulho estranho, não alto, diferente de qualquer coisa que eu já havia ouvido antes. A terra sacudiu ao mesmo tempo; conseguíamos sentir o lugar inteiro se mover.”

Em poucas horas, todos na sua comunidade adoeceram. “Estávamos todos vomitando; tivemos diarreia, irritações na pele e olhos doloridos”, disse ele. “Alguns dos mais velhos morreram.”

Yami tornou-se um dos principais defensores das comunidades aborígenes da Austrália que sofreram danos em decorrência dos testes. Desde sua morte em 2017, seus filhos têm dado continuidade à luta por justiça.

Crédito: Jesse Boylan

Cazaquistão: um artista que nasceu sem braços

Karipbek Kuyukov cresceu na aldeia cazaque de Yegyndybulak, próxima a Semipalatinsk — o maior local de testes nucleares da União Soviética. Ele se lembrava dos móveis e da louça tremendo cada vez que uma explosão de teste nuclear ocorria durante sua infância.

Antes de seu nascimento, seus pais escalavam uma colina perto de casa para ter uma visão melhor das enormes e brilhantes nuvens em cogumelo que se erguiam alto no céu.

“Eles nem sabiam sobre os riscos à saúde e as consequências devastadoras dos crimes que estavam sendo cometidos contra eles”, refletiu ele.

Karipbek nasceu em 1968 sem braços. Apesar de seus desafios físicos, tornou-se um renomado artista, pintando com os pés e a boca. Muitas de suas obras de arte transmitem uma mensagem antinuclear.

“Minha principal missão nesta terra é fazer tudo o que puder para que pessoas como eu sejam as últimas vítimas dos testes nucleares”, disse ele. “Não quero a repetição desses eventos em nenhum lugar ou momento, em nenhum ponto do planeta… Que nosso céu seja limpo e nossas crianças sejam saudáveis!”

De 1949 a 1989, a União Soviética realizou mais de 450 explosões de testes nucleares em Semipalatinsk — quase um quarto de todos os testes realizados no mundo.

Uma das obras de Karipbek Kuyukov, intitulada “Fear” (Medo).

Ilhas Marshall: atóis radioativos

Nerje Joseph tinha sete anos em 1954 quando os Estados Unidos realizaram seu maior teste nuclear, o “Castle Bravo”, a cerca de 160 quilômetros de sua casa no Atol de Rongelap, nas Ilhas Marshall.

A explosão foi muito maior do que o esperado e causou uma contaminação muito mais grave. O céu ficou laranja e rosa. Nenhum dos habitantes do atol sabia o que havia acontecido.

Horas depois, cinzas radioativas e fragmentos de coral choveram sobre suas casas, contaminando sua pele, água e alimentos. Logo eles começaram a apresentar sintomas de síndrome aguda de radiação.

O cabelo de Nerje caiu e, assim como quase todos os outros no atol, ela sofreu queimaduras.

Dias depois, as autoridades americanas evacuaram os habitantes de Rongelap para outro atol por causa do risco extremo que a precipitação nuclear representava à saúde deles. Mas após três anos de deslocamento, as autoridades os encorajaram a retornar, pois queriam estudar os efeitos do restante da radiação na saúde.

“Dados desse tipo nunca estiveram disponíveis”, disse um oficial americano na época. “Embora seja verdade que essas pessoas não vivem do modo que os ocidentais vivem, pessoas civilizadas, ainda assim é verdade que elas se parecem mais conosco do que os camundongos.”

Para os habitantes de Rongelap, o retorno ao lar se provaria catastrófico. Cânceres, abortos espontâneos, natimortos e bebês com defeitos congênitos se multiplicaram.

Devido ao acúmulo de isótopos radioativos, Nerje precisou ter a tireoide removida cirurgicamente. Ela ansiava pelo retorno aos bons tempos anteriores aos testes nucleares.

De 1946 a 1958, os Estados Unidos realizaram 67 explosões de testes nucleares nas Ilhas Marshall. Somente o Castle Bravo teve uma força explosiva mil vezes maior do que a da bomba de Hiroshima.

Ainda hoje, atóis inteiros permanecem impróprios para habitação, produção agrícola e pesca.

A queda de cabelo e as queimaduras nos pés de Nerje Joseph causadas pela radiação. Crédito: Governo dos EUA

Outras fontes de dano

Outros aspectos do desenvolvimento de armas nucleares — desde a mineração de urânio até o descarte de resíduos radioativos — também tiveram impactos devastadores na saúde humana e no meio ambiente.

Nas minas de urânio — onde começa o processo de fabricação de armas nucleares — a poluição radioativa e química proveniente dos rejeitos de mineração infiltrou-se no solo e nos cursos d'água, prejudicando trabalhadores e comunidades vizinhas. Nenhuma mina em nenhum lugar do mundo foi completamente descontaminada após o encerramento das atividades de mineração.

A contaminação radioativa também ocorreu em reatores nucleares envolvidos na produção de plutônio para armas nucleares. Na usina nuclear de Windscale, no Reino Unido, por exemplo, um incêndio durou três dias em 1957, lançando plumas de radiação por grande parte da Europa. Todo o leite das fazendas nas redondezas teve de ser descartado.

Muitas comunidades ao redor do mundo também enfrentam desafios contínuos relacionados ao armazenamento seguro de enormes quantidades de resíduos nucleares acumulados pela produção de dezenas de milhares de armas nucleares desde 1945. Esses resíduos permanecerão perigosos por milênios.

Manifestantes antinucleares no estado americano do Arizona. Crédito: Jack Cohen-Joppa

Armas nucleares hoje

Atualmente, nove nações possuem vários milhares de armas nucleares, representando uma ameaça existencial única para pessoas em todo o mundo. Muitas centenas delas são mantidas em alerta máximo, prontas para uso em questão de minutos.

Estão em silos de mísseis, a bordo de aeronaves e em submarinos que patrulham os oceanos ininterruptamente. Algumas podem percorrer milhares de quilômetros, atravessando continentes, para alcançar seus alvos.

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A maioria tem poder explosivo vastamente superior ao das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki no início da era nuclear. As maiores são equivalentes em força a mais de um milhão de toneladas — ou um megaton do explosivo químico convencional TNT.

Até mesmo as chamadas armas nucleares “táticas”, destinadas ao uso em campo de batalha, podem ter poder explosivo 20 vezes maior do que o da bomba de Hiroshima.

Um único submarino com armamento nuclear pode carregar uma dúzia ou mais de mísseis balísticos, cada um equipado com várias ogivas nucleares, com capacidade combinada para destruir mais de uma centena de cidades.

 

Nações nuclearmente armadas

Nove nações possuem armas nucleares hoje: os Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e a Coreia do Norte. Os arsenais nucleares russo e americano são, de longe, os maiores.

As pessoas que vivem perto de bases militares onde armas nucleares estão implantadas enfrentam um risco especialmente elevado de se tornarem vítimas de um ataque nuclear ou de sofrerem danos causados por uma explosão nuclear acidental. Devido ao sigilo governamental, algumas dessas pessoas podem até desconhecer sua proximidade com as armas.

A maioria das armas nucleares não está simplesmente armazenada. Elas estão ativamente implantadas — prontas para uso a qualquer momento — e os governos estão envolvidos em programas de alto custo para aprimorar e expandir seus arsenais sob o pretexto de “modernização”.

Algumas nações com armas nucleares estão desenvolvendo novos tipos de armas nucleares, testando novos sistemas para seu lançamento e ampliando suas doutrinas para possível uso nuclear. Todas parecem determinadas a manter suas forças nucleares por tempo indefinido.

Um míssil nuclear russo em um desfile militar em 2023. Crédito: Governo russo

Mísseis nucleares americanos em exibição em um museu. Crédito: Governo dos EUA

Nações cúmplices

Embora apenas nove nações possuam armas nucleares, mais de 30 outras apoiam sua manutenção e possível uso, inclusive reivindicando proteção sob o chamado “guarda-chuva nuclear” de um aliado.

Todos os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), por exemplo, endossaram publicamente as armas nucleares. Vários até hospedam bombas nucleares americanas em seus territórios — incluindo Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos e Turquia — e fornecem as aeronaves e o pessoal necessários para lançá-las. A Bielorrússia tem um acordo de hospedagem semelhante com a Rússia.

Algumas nações compartilham informações de inteligência para fins de alvo nuclear, ou permitem que navios com armamento nuclear transitem por suas águas e atraquem em seus portos, ou que aeronaves com armamento nuclear entrem em seu espaço aéreo e reabasteçam combustível em seus aeroportos.

Todos esses atos de cumplicidade perpetuam os perigos nucleares e minam os esforços de desarmamento.

Manifestantes na Alemanha bloqueiam uma base militar onde bombas nucleares americanas estão estacionadas. Crédito: Ralf Schlesener

Preocupações com a proliferação

O fracasso das nações com armas nucleares em se desarmarem aumentou o risco de que mais nações, ou até mesmo atores não estatais, venham a adquirir armas nucleares. Alcançar progressos no desarmamento é essencial para prevenir sua proliferação.

Embora medidas importantes estejam em vigor para proteger contra a proliferação, a eficácia dessas medidas não pode ser garantida. Qualquer nação capaz de enriquecer urânio ou reprocessar combustível nuclear usado para produzir plutônio poderia, teoricamente, desenvolver uma arma nuclear em questão de meses.

África do Sul, Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte adquiriram armas nucleares utilizando instalações e materiais que eram ostensivamente destinados a “fins pacíficos”, enfatizando os riscos de proliferação inerentes aos programas de energia nuclear.

Apenas alguns quilogramas de urânio altamente enriquecido ou plutônio separado seriam suficientes para produzir uma bomba nuclear. Hoje, centenas de toneladas desses materiais existem em estoques globais, com mais sendo produzido continuamente. Para que o desarmamento seja bem-sucedido, esse problema deve ser enfrentado.

O caso pela abolição

Para proteger a humanidade dos danos catastróficos e irreversíveis que as armas nucleares foram concebidas para infligir, os governos devem trabalhar com urgência para eliminá-las.

Dezenas de milhares de armas nucleares já foram desmanteladas em resposta aos apelos de pessoas em todo o mundo pela abolição. Um país, a África do Sul, eliminou completamente suas armas nucleares; dezenas de outros abandonaram planos para adquiri-las.

No auge da Guerra Fria, havia cerca de 70.000 armas nucleares, com reduções significativas no estoque global alcançadas entre meados da década de 1980 e o início dos anos 2000.

Mais recentemente, porém, os programas de desmantelamento de ogivas chegaram a um impasse, e algumas nações com armas nucleares estão agora expandindo seus arsenais em ritmo sem precedentes. Nenhuma delas apresentou um plano para o desarmamento total.

Mas a grande maioria das nações do mundo permanece fortemente contrária às armas nucleares e quer que sejam abolidas sem demora.

Não basta apenas impedir a disseminação dessas armas para mais nações, ou impor limites às circunstâncias em que poderiam ser usadas. Dada a gravidade da ameaça que representam para toda a vida em nosso planeta, o abolicionismo é a única resposta.

Uma instalação do Artists Against the Bomb. Crédito: Miki Anagrius

Imorais, ilegais e antidemocráticas

As armas nucleares infligem morte e destruição em escala massiva e ameaçam a própria sobrevivência da humanidade. O assassinato e mutilação indiscriminados de centenas de milhares de pessoas jamais poderão ser moralmente justificados.

Qualquer uso de armas nucleares violaria o Direito Internacional e constituiria um crime de guerra da mais alta ordem. Armas com efeitos catastróficos jamais poderão servir a um propósito militar ou estratégico legítimo.

Em todo o mundo, inclusive nas nações com armas nucleares, pesquisas de opinião indicam forte apoio público para a abolição. Os governos que continuam a desenvolver arsenais nucleares estão agindo de forma contrária à vontade — e aos melhores interesses — de seus cidadãos.

Todos, em todos os lugares, têm a ganhar com a eliminação dessas mais terríveis armas.

O risco crescente de uso

O risco de uma arma nuclear ser usada hoje, seja por acidente ou intencionalmente, é tão alto quanto jamais foi — e parece estar apenas aumentando.

Isso se deve a fatores como o grave ambiente de segurança internacional, as tensões elevadas entre nações com armas nucleares, o fortalecimento de suas forças nucleares e a erosão de normas e instituições internacionais.

A busca por capacidades cibernéticas ofensivas, tecnologias autônomas e inteligência artificial no domínio militar torna a ameaça ainda maior.

Manter armas nucleares em alerta máximo — prontas para uso em minutos após um aviso de ataque iminente — é uma prática particularmente perigosa. Uma vez lançado, um míssil com ogiva nuclear não pode ser recolhido. Ele deve prosseguir até seu alvo, mesmo que o lançamento tenha sido baseado em informações falsas.

Na neblina da guerra, os líderes tendem a agir de forma irracional e imprevisível. O potencial para mal-entendidos é especialmente grande em situações estressantes e caóticas.

É fácil demais imaginar como um momento de pânico ou crueldade, um ego ferido ou um ruído de comunicação poderia levar a uma catástrofe global, já que o vasto poder de desencadear a devastação nuclear está concentrado nas mãos de alguns poucos indivíduos.

Em múltiplas ocasiões durante a Guerra Fria, o mundo esteve perigosamente próximo de vivenciar uma guerra nuclear em escala total. O incidente mais famoso foi a crise dos mísseis cubanos de 1962, envolvendo os Estados Unidos e a União Soviética.

O fato de as armas nucleares não terem sido usadas em conflito desde 1945 tem mais a ver com a sorte do que com a boa gestão. E mais cedo ou mais tarde, nossa sorte vai acabar — a menos que medidas eficazes sejam tomadas para eliminar essa ameaça.

Acidentes e erros

Não existe apenas o risco do uso deliberado de armas nucleares; elas também poderiam ser detonadas como resultado de erro humano, falha técnica, ataque cibernético, alertas mal interpretados ou acesso não autorizado aos sistemas de comando e controle.

Os inúmeros acidentes envolvendo armas nucleares desde 1945, bem como os incidentes em que elas quase foram usadas por engano, demonstram o alarmante potencial para um desastre não intencional.

Em 1968, por exemplo, uma aeronave americana carregando quatro bombas nucleares pegou fogo e caiu perto da Groenlândia, contaminando a área ao redor com plutônio. Felizmente, embora explosões tenham ocorrido, nenhuma reação nuclear em cadeia foi desencadeada.

Em 1995, autoridades russas confundiram o lançamento de um foguete científico norueguês com um míssil balístico lançado por um submarino americano. O presidente russo chegou a recuperar os códigos de lançamento para um ataque de retaliação, mas determinou, por fim, que se tratava de um falso alarme.

Outros incidentes profundamente perturbadores envolveram a perda de armas nucleares no mar, colisões entre submarinos nuclearmente armados, cisnes em voo e luz refletida em nuvens sendo confundidos com mísseis de ogiva nuclear, e a inserção inadvertida de fitas de treinamento em um computador operacional que simulou um ataque nuclear em curso.

Em 1961, duas bombas nucleares caíram no solo no estado americano da Carolina do Norte quando um bombardeiro perdeu uma asa. “Pela mais tênue margem do acaso, literalmente a falha de dois fios em se cruzarem, uma explosão nuclear foi evitada”, disse Robert McNamara, secretário de defesa dos EUA na época. Crédito: Governo dos EUA

Dissuasão nuclear

As nações com armas nucleares frequentemente invocam a teoria da “dissuasão nuclear” para justificar a manutenção de arsenais nucleares. Argumentam que suas armas têm o único propósito de dissuadir outras nações de iniciar um ataque nuclear e que, como tal, contribuem para a paz e a estabilidade.

A maioria das nações, entretanto, rejeita essa lógica e vê a dissuasão nuclear como uma abordagem perigosa, equivocada e insustentável para a segurança. Além disso, ela é inerentemente agressiva, pois se baseia em uma ameaça constante e crível de infligir morte e destruição em larga escala.

Ao contrário do que afirmam os defensores da dissuasão, a existência de armas nucleares no mundo não impediu conflitos, incluindo atos de agressão contra nações com armas nucleares. Na verdade, as armas nucleares tornaram guerras e confrontos mais prováveis ao exacerbar tensões e possibilitar coerção e chantagem.

A teoria da dissuasão sugere que as armas nucleares são uma fonte legítima e desejável de segurança. Isso encoraja a proliferação e dificulta o desarmamento.

Nenhuma resposta humanitária possível

O uso de uma única arma nuclear em qualquer lugar do mundo sobrecarregaria a infraestrutura de saúde, tornando impossível uma resposta humanitária eficaz.

Hospitais e farmácias, equipamentos de combate a incêndio, sistemas de comunicação e transporte estariam todos em escombros em uma zona de destruição total que se estenderia por quilômetros.

Aqueles que tentassem prestar socorro aos doentes e feridos estariam expostos a altos níveis de radioatividade, arriscando suas próprias vidas.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha advertiu repetidamente que não existe capacidade de resposta adequada no caso do uso de uma única arma nuclear, quanto mais de uma guerra nuclear em escala total, e que tal capacidade jamais poderia ser desenvolvida.

Da mesma forma, a Organização Mundial da Saúde concluiu que “o que restasse dos serviços médicos no mundo não poderia aliviar o desastre de forma alguma significativa.”

A representação de um sobrevivente de Hiroshima de um posto de socorro em 1945. Os feridos morriam um após o outro. Crédito: Fumiko Yamaoka

Um desperdício de recursos

A cada ano, as nações nuclearmente armadas gastam muitos bilhões de dólares aprimorando e expandindo suas forças nucleares — dinheiro que poderia ser investido em saúde, educação, redução da pobreza e medidas para enfrentar a crise climática.

Em algumas nações, corporações obtêm grandes lucros apoiando o desenvolvimento e a produção de armas nucleares. Institutos de pesquisa e universidades também estão envolvidos e se beneficiam financeiramente.

Encerrar esse trabalho que coloca vidas em risco libertaria recursos para outros fins e permitiria que algumas das mentes científicas mais brilhantes contribuíssem para um mundo mais pacífico — em vez de aperfeiçoar a capacidade de seus exércitos de matar e destruir em massiva escola.

Um submarino com armamento nuclear em construção no Reino Unido. Crédito: Governo do Reino Unido

Bunkers podem ajudar?

Construir mais bunkers nucleares, ou abrigos antirradiação, não é a solução. Populares durante a Guerra Fria, eles dão aos cidadãos uma falsa sensação de segurança quanto à possibilidade de sobreviver a uma guerra nuclear.

No caso de um ataque nuclear, é improvável que alguém receba um aviso prévio, portanto não haveria oportunidade de buscar abrigo.

Além disso, muitos dos bunkers próximos ao ponto zero se tornariam fornalhas, matando todos no interior. De fato, algumas armas nucleares são especificamente projetadas para penetrar fundo na terra e destruir bunkers.

Aqueles que conseguissem encontrar um bunker a tempo e sobreviver dentro dele se depararia, ao sair, com uma paisagem infernal e radioativa, com poucas chances de serem resgatados.

Um obstáculo à paz

As armas nucleares não fazem nada para enfrentar nenhum dos desafios de segurança atuais. Pelo contrário, tornam muitos deles piores ou são sua principal causa.

Alcançar a abolição permitiria relações mais harmoniosas entre as nações e criaria oportunidades para uma maior cooperação internacional, beneficiando pessoas em todo o mundo — incluindo, e não menos importante, as nações atualmente armadas com armas nucleares.

Seria um bem público global da mais alta ordem, servindo tanto aos interesses de segurança nacionais quanto coletivos.

Crítica de gênero

Líderes que expressam disposição para usar armas nucleares são frequentemente elogiados como masculinos, fortes e decisivos, ao passo que aqueles que apoiam o desarmamento são dispensados como femininos, fracos e emocionais.

Além disso, os debates públicos e a tomada de decisões sobre armas nucleares tendem a ser dominados por homens.

Desafiar ativamente essas noções e garantir maior diversidade e inclusão de gênero melhoraria as perspectivas de sucesso no desarmamento.

A proibição das armas nucleares

Em 2017, após uma década de sensibilização política da Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN) e seus parceiros, 122 nações votaram para adotar um Tratado histórico para proibir as piores armas do mundo, conhecido como o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares (TPAN). Ele entrou em vigor em 2021.

Antes desse momento, as armas nucleares eram as únicas armas de destruição em massa não sujeitas a uma proibição abrangente e globalmente aplicável. Assim, o novo Tratado preencheu uma lacuna importante no Direito Internacional.

Ele nasceu de uma profunda preocupação com a crescente ameaça que as armas nucleares representam para a sobrevivência humana, o meio ambiente, o desenvolvimento socioeconômico, a economia global, a segurança alimentar e a saúde e o bem-estar das atuais e futuras gerações.

Não é apenas o primeiro Tratado multilateral a proibir as armas nucleares de forma absoluta, mas também o primeiro a estabelecer estruturas para a eliminação verificável das armas nucleares e para a assistência às vítimas de seu uso e testes.

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Embora nenhuma nação nuclearmente armada tenha aderido ao TPAN até o momento, ele continua sendo uma ferramenta indispensável para fortalecer o tabu global contra o uso de armas nucleares e impulsionar ações há muito devidas em prol do desarmamento.

A história mostrou que a proibição de certos tipos de armas facilita o progresso rumo à sua eliminação. Armas que foram proibidas são cada vez mais vistas como ilegítimas, perdendo seu status político e, junto com ele, os recursos para sua produção.

“A entrada em vigor do Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares em janeiro de 2021 foi uma conquista extraordinária e um passo em direção à eventual eliminação das armas nucleares.”

António Guterres, Secretário-Geral da ONU, 2021

À medida que mais e mais nações aderirem ao TPAN ao longo do tempo, suas normas se tornarão mais fortes e a pressão sobre as nações com armas nucleares para que se conformem a elas se intensificará. Até o momento, mais da metade das nações do mundo aderiu ao tratado.

Ele oferece uma alternativa poderosa a um mundo em que ameaças de infligir destruição em massa são permitidas de prevalecer. Apresenta um caminho a seguir em um momento de alarmante crise.

Uma cerimônia de alto nível para a assinatura do TPAN em 2017. Crédito: ONU Photo

Principais disposições do TPAN

Proibições

O TPAN proíbe as nações de desenvolver, testar, produzir, adquirir, estocar, transferir, usar ou ameaçar usar armas nucleares. Também são proibidas de hospedar armas nucleares de outra nação em seu território, ou de auxiliar ou encorajar outros a se envolverem em atividades proibidas pelo tratado.

Estrutura para a eliminação

O Tratado estabelece uma estrutura legal para a eliminação verificável e irreversível de programas de armas nucleares e instalações associadas. Uma nação nuclearmente armada que a ele aderir deve retirar suas armas nucleares do status operacional imediatamente e destruí-las de acordo com um plano negociado e com prazo definido, dentro de um limite de até 10 anos. Alternativamente, uma nação pode destruir suas armas nucleares antes de aderir ao tratado e ter isso verificado por uma autoridade internacional designada.

Assistência às vítimas e remediação ambiental

O Tratado exige que as nações assistam às vítimas do uso e dos testes de armas nucleares, inclusive com cuidados médicos, reabilitação e apoio psicológico. Elas também devem tomar medidas para remediar áreas contaminadas com radiação proveniente de explosões nucleares. A cooperação internacional é fundamental para a implementação eficaz dessas disposições.

Baseando-se em outros tratados

O TPAN reforça tratados anteriores relacionados às armas nucleares, incluindo o Tratado de Não Proliferação de 1968, que visa limitar o número de nações possuidoras de armas nucleares e avançar no objetivo do desarmamento.

Conforme afirmado pela Corte Internacional de Justiça em 1996, as nações têm uma obrigação legal “de prosseguir de boa-fé e concluir negociações visando o desarmamento nuclear”. A falta de progresso nesse sentido foi uma das principais motivações para a negociação do TPAN.

Outros tratados complementares incluem o Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares de 1996 e Tratados regionais que estabelecem zonas livres de armas nucleares na América Latina e no Caribe, no Pacífico Sul, na África, no Sudeste Asiático e na Ásia Central.

O TPAN é baseado em um conjunto de leis conhecido como Direito Internacional Humanitário, que limita os métodos e meios de guerra. As partes em um conflito armado devem abster-se de usar armas incapazes de distinguir entre civis e combatentes, ou aquelas que infligem ferimentos supérfluos ou sofrimento desnecessário.

A cópia original do TPAN. Crédito: ICAN

Trazendo mais nações a bordo

Qualquer nação pode aderir ao TPAN a qualquer momento. Aquelas que atualmente relutam em fazê-lo podem reavaliar suas posições à medida que o número de membros do tratado cresce e as exigências de seus cidadãos se tornam mais vocais.

Esse foi o caso no passado com outros Tratados. França e China, por exemplo, se opuseram ao Tratado de Não Proliferação quando ele foi negociado, mas se sentiram compelidas a aderir a ele décadas depois.

O mundo está mudando rapidamente, e os líderes de hoje não permanecerão no poder para sempre. Governos futuros podem aceitar os méritos do Tratado onde os governos atuais não o fazem.

As nações que aderiram ao TPAN são obrigadas a encorajar outras a se juntarem, com o objetivo final de uma “adesão universal”.

Aderir ao tratado envia uma mensagem clara de que as armas nucleares são inaceitáveis e devem ser abolidas. Em um momento de crescentes perigos nucleares, ele oferece a melhor esperança para a eliminação das piores armas.

“Aproveitemos agora as oportunidades únicas que este tratado nos oferece e ponhamos fim à era das armas nucleares.”

Comitê Internacional da Cruz Vermelha, 2020

Uma reunião das partes do TPAN em Nova York em 2025. Crédito: ICAN

Desarmadores: África do Sul e Cazaquistão

Dois dos principais defensores do TPAN, África do Sul e Cazaquistão, demonstraram por meio de ações passadas que o desarmamento nuclear é possível.

Quando o Cazaquistão conquistou sua independência em 1991, após o colapso da União Soviética, mais de 1.400 armas nucleares permaneciam em seu território. O país optou por renunciar a todas elas, reconhecendo que sua segurança seria melhor alcançada por meio do desarmamento.

A África do Sul chegou à mesma conclusão no fim da era do Apartheid, no início dos anos 1990, desmantelando voluntariamente todo o seu arsenal de bombas nucleares — um ato posteriormente verificado pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Líderes de ambas as nações expressaram grande orgulho em suas contribuições para alcançar um mundo livre de armas nucleares, instando outros a seguirem o mesmo caminho.

Carcaças das bombas nucleares da África do Sul.

Ação para a abolição

As armas nucleares foram construídas por mãos humanas e podem ser desmanteladas por mãos humanas. Não há barreiras técnicas, apenas políticas. Dezenas de milhares de armas nucleares já foram deixadas de lado.

Com liderança e vontade política, novos avanços rumo ao desarmamento poderiam ser alcançados muito rapidamente. O fato de que grandes regiões geográficas já foram declaradas livres de armas nucleares sugere que, um dia, o mundo inteiro possa ser.

Historicamente, alguns dos maiores avanços no campo do controle de armas nucleares foram alcançados em momentos de alta tensão internacional. Uma crise pode concentrar a atenção dos líderes e forçá-los a explorar novos caminhos a seguir.

Mas o progresso sempre dependerá de um poderoso movimento de base pela mudança, envolvendo cidadãos preocupados de todas as esferas da vida. O forte e duradouro tabu global que existe hoje contra o uso de armas nucleares é o resultado de décadas de resistência popular.

Há muitas maneiras pelas quais os indivíduos podem contribuir para a causa de eliminar as piores armas do mundo.
Aqui estão algumas delas:

Uma procissão com tochas por Oslo, Noruega, em apoio ao TPAN. Crédito: Kristian Laemmle-Ruff

Educar

Compartilhe informações com amigos, familiares e colegas sobre a urgência de abolir as armas nucleares. Escreva artigos e cartas para editores, publique conteúdo nas redes sociais e organize fóruns públicos, aulas abertas e exibições de filmes.

Aumentar a conscientização sobre os danos que as armas nucleares infligem às pessoas e ao meio ambiente é especialmente importante. Com muita frequência, a educação sobre armas nucleares foca, em vez disso, nos homens que inventaram e lançaram as armas em 1945.

Os testemunhos em primeira mão dos sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki, e de pessoas prejudicadas pelos testes nucleares, podem ajudar a mudar atitudes e motivar a ação.

Pássaros de papel

No Japão, os pássaros de papel — origamis em forma de tsuru — são tradicionalmente um símbolo de boa saúde e vida longa. Hoje, também são reconhecidos internacionalmente como símbolo de paz e podem ser usados para despertar conversas importantes sobre a necessidade urgente de eliminar as armas nucleares.

Quando tinha dois anos de idade, Sadako Sasaki foi exposta à radiação da bomba de Hiroshima. Anos depois, foi diagnosticada com leucemia — um efeito tardio da radiação — e estabeleceu para si mesma a meta de dobrar mil pássaros de papel enquanto estava hospitalizada, na esperança de que isso lhe trouxesse boa saúde.

Ela perseverou e alcançou sua meta, mas, tragicamente, foi ficando mais fraca a cada dia e faleceu aos 12 anos.

Desde então, crianças em todo o Japão e no mundo inteiro dobram pássaros de papel para demonstrar seu apoio à eliminação das armas nucleares.

Que tal enviar pelo correio ou entregar pessoalmente pássaros de papel aos representantes eleitos em seu país, junto com uma carta solicitando seu apoio ao Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares?

Milhares de pássaros de papel enfeitando um monumento em Nagasaki. Crédito: ICAN

Faça pressão política

Escreva, ligue ou reúna-se com tomadores de decisão em seu país para buscar seu apoio pela abolição total das armas nucleares.

Desde 2017, milhares de parlamentares de todo o espectro político responderam às demandas de cidadãos preocupados e assinaram o apelo da ICAN para promover a adesão ao Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares.

Centenas de cidades, de Washington DC a Paris e Sydney, também apoiaram formalmente o Tratado, assinando o apelo da ICAN.

Não é necessário você ser especialista para fazer sua voz ser ouvida. O que importa é que você reconheça a gravidade da ameaça e a urgência da ação.

A ICAN reúne parlamentares de todo o mundo. Crédito: Derek French

Proteste

O protesto não violento é uma forma importante das pessoas expressarem sua rejeição às armas nucleares. Pode assumir muitas formas, incluindo manifestações, marchas, bloqueios e vigílias.

Por décadas, membros do movimento global pela paz e pelo desarmamento realizaram protestos, grandes e pequenos, para chamar atenção para a causa. Inúmeras ações ocorreram em locais onde armas nucleares são construídas e implantadas, em universidades envolvidas em seu desenvolvimento e em frente de parlamentos nacionais.

Sem dúvida, protestos em massa ajudaram a pôr fim aos testes nucleares, frear a expansão dos arsenais nucleares, impedir qualquer uso de armas nucleares em guerra desde 1945 e construir pressão pelo desarmamento.

É necessária uma ação mais direta hoje.

Uma ação antinuclear em Melbourne, Austrália. Crédito: Jesse Boylan

Desinvestir

Em algumas nações nuclearmente armadas, empresas estão envolvidas na produção de armas nucleares e seus componentes, e instituições financeiras fornecem capital para viabilizar esse trabalho.

Desinvestir da indústria de armas nucleares é uma contribuição tangível que as instituições financeiras podem fazer ao desarmamento. Centenas já o fizeram, comprometendo-se com finanças livres de armas nucleares, em linha com o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares.

Indivíduos podem contatar seus bancos e fundos de pensão e insistir para que empresas envolvidas com armas nucleares sejam excluídas de seus investimentos.

Sobre a campanha

A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN) é uma coalizão global de organizações não governamentais com uma missão simples: convencer cada nação do mundo a aderir e implementar integralmente o histórico Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares.

Fundada em Melbourne, Austrália, em 2007, a campanha foi inspirada no bem-sucedido movimento para proibir as minas antipessoal uma década antes, com base em fundamentos humanitários. Hoje, a ICAN tem sede em Genebra, Suíça.

“Precisamos de um movimento mundial determinado para proibir e abolir as armas nucleares. Para chegar lá nesta geração precisamos transformar a onda de opinião pública em um crescendo poderoso: uma força massiva, avassaladora e irresistível que nos leve até o zero absoluto em armamentos nucleares. Sem ela, até mesmo os líderes mais inspiradores vacilarão no caminho.”

Bill Williams, cofundador da ICAN, 2006

Uma ação da ICAN em Genebra. Crédito: Aude Catimel

Desde sua fundação, a ICAN tem se concentrado em construir uma poderosa onda crescente de oposição pública às armas nucleares, inclusive amplificando as vozes dos sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e das pessoas prejudicadas pelos testes nucleares.

Trabalhando ao lado do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, do secretariado da ONU e de governos com ideias comuns, a ICAN realizou eventos de conscientização, publicou pesquisas pioneiras, organizou dias globais de ação e defendeu o abolicionismo diretamente junto a tomadores de decisão de alto nível.

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Prêmio Nobel da Paz

Em 2017, a ICAN foi laureada com o Prêmio Nobel da Paz “por seu trabalho para chamar atenção para as catastróficas consequências humanitárias de qualquer uso de armas nucleares e por seus esforços inovadores para alcançar um Tratado proibindo tais armas”.

“É nossa firme convicção que a ICAN, mais do que ninguém, deu aos esforços para alcançar um mundo sem armas nucleares uma nova direção e um novo vigor no último ano.”

Comitê Nobel Norueguês, 2017

O prêmio é uma homenagem aos esforços incansáveis dos inúmeros ativistas e cidadãos preocupados em todo o mundo que, desde o alvorecer da era nuclear, protestaram veementemente contra as armas nucleares, insistindo que sejam abolidas para sempre.

Isso não é um sonho distante, mas uma necessidade urgente. As gerações futuras devem crescer livres desse terrível flagelo.

Uma ação com estudantes em Hiroshima. Crédito: Takeo Nakaoku

Setsuko Thurlow

Com 13 anos de idade, Setsuko Thurlow foi derrubada inconsciente pela explosão da bomba nuclear lançada sobre Hiroshima. Ela ficou presa nos escombros de um edifício desmoronado, mas conseguiu, por fim, se arrastar para fora.

“A maioria dos meus colegas de classe naquele edifício foi queimada viva”, ela recordou. “Vi ao meu redor uma devastação absoluta e inimaginável… O fétido cheiro de carne humana queimada tomou o ar.”

Testemunha viva dos horrores da guerra nuclear, Setsuko aceitou conjuntamente o Prêmio Nobel da Paz concedido à ICAN em 2017. “A cada segundo de cada dia, as armas nucleares colocam em perigo todos que amamos e tudo o que nos é precioso”, ela advertiu.

“Não podemos mais tolerar essa insanidade.”

Ela instou os líderes mundiais a assinarem o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares, recentemente adotado. “Que este seja o começo do fim das armas nucleares”, disse ela. “Juntem-se a este Tratado; erradiquem para sempre a ameaça de aniquilação nuclear.”

Setsuko Thurlow na cerimônia do Prêmio Nobel da Paz na Noruega em 2017. Crédito: Jo Straube

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